Primeiro caso de superfungo Candida auris no RN: Dra. Eveline Pípolo explica riscos e prevenção
O fungo exige monitorização contínua e adoção de técnicas moleculares avançadas para o seu diagnóstico correto nos hospitais.
O Rio Grande do Norte registrou o seu primeiro caso confirmado de contaminação pelo superfungo Candida auris. O paciente está internado no Hospital Central Coronel Pedro Germano (Hospital da Polícia Militar), em Natal. Diante da ocorrência, a Secretaria de Estado da Saúde Pública (SESAP) adotou protocolos reforçados de prevenção e rastreamento para conter a transmissão.
Para explicar a dimensão desse alerta e desmistificar os medos em torno do fungo, a médica infectologista e professora do Departamento de Infectologia da UFRN, Dra. Eveline Pípolo, concedeu uma entrevista detalhando as características que tornam este microrganismo uma ameaça aos ambientes hospitalares.
Ouça a entrevista completa
Dra. Eveline Pípolo para a Rádio Universitária
O que faz do Candida auris um "Superfungo"?
De acordo com a Dra. Eveline, o título de "superfungo" não é em vão. Ele é atribuído devido a três características cruciais que desafiam as equipas clínicas:
- 1. Multirresistência: Em várias partes do mundo, o fungo é resistente às três principais classes de antifúngicos utilizados em hospitais (polienos, azóis e equinocandinas). A médica ressalta que, felizmente, a cepa brasileira geralmente ainda se mostra sensível às equinocandinas.
- 2. Alta capacidade de propagação: Ele dissemina-se facilmente no meio ambiente, sobrevivendo em superfícies inanimadas e podendo ser transportado pelas mãos dos profissionais de saúde ou no corpo dos pacientes.
- 3. Dificuldade de identificação: Nos métodos clássicos de laboratório, ele cresce com um aspecto muito semelhante ao de outras espécies comuns de cândida.
Dificuldade no Diagnóstico e Prevenção
A identificação exata da espécie exige tecnologia avançada. "Para que ocorra uma identificação precisa, é necessário que o serviço adote técnicas de biologia molecular, como o MALDI-TOF, o sequenciamento ou uma PCR específica", aponta a especialista. Estas tecnologias, no entanto, não fazem parte da rotina da maioria dos hospitais e laboratórios clínicos.
Como prevenção, a regra de ouro é o isolamento rigoroso. Pacientes colonizados ou infectados devem permanecer em enfermarias restritas, e os profissionais de saúde só devem entrar totalmente paramentados (com capote, luvas, máscara e gorro), descartando todo o material ao sair para evitar a contaminação cruzada. Além disso, a desinfecção do ambiente precisa ser potencializada.
Um recado tranquilizador para a população
Apesar da gravidade do quadro para pacientes já internados (principalmente aqueles com sistema imunológico enfraquecido ou com dispositivos invasivos), a Dra. Eveline é categórica: não há motivo para pânico ou mudança de comportamento na sociedade.
"O surgimento de um isolado de Candida auris num ambiente hospitalar é um alerta para os serviços de saúde. Ele é um problema hospitalar, não é um problema ambiental nem comunitário", concluiu a médica.